quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A REVELAÇÃO: Rubem Alves

CRÔNICAS: RUBEM ALVES

A REVELAÇÃO
A revelação acontece de repente, sem avisar. É bem verdade que diariamente nos olhamos no espelho. Mas este olhar diário é um ver sem perceber.
Por muitos anos sabia que meus cabelos estavam caindo. Notava que minhas entradas iam ficando maiores. Mas continuava a penteá-los normalmente, sem notar que o repartido se aproximava cada vez mais da orelha. Eu era um caso de charmosos cabelos ralos. O espelho me dizia, mas eu não acreditava. O momento da revelação aconteceu no Recife, numa roda de repentistas. Um deles, pra ser gentil, improvisou-me um verso, cantando-me como doutor careca. Desde este dia nunca mais me olhei no espelho da mesma maneira. Percebi que era inútil continuar a lutar com o repartido. Mas não liguei muito, consolando-me com a lembrança de que um dos maiores heróis da mitologia, Ulisses (não o de Brasília, mas o da Odisseia...) era careca também. E como Penélope o amava!
Por vezes a revelação terrível nos chega sob a forma de um elogio. “Puxa, como você está conservado!” Ninguém que me veja todo dia vai me dizer uma coisa destas. O espanto ante o meu surpreendente estado de conservação só pode existir em alguém que não me via há muito tempo, e que esperava me encontrar num estado mais avançado de deterioração. Tais experiências de espanto e os elogios que as revelam ocorrem, preferencialmente, nas reuniões de família, eventos raros que geralmente acontecem nos enterros, e nos reencontros para a comemoração dos 25 anos de formatura. Ao ouvir tal cumprimento, lembro-me sempre dos pepinos conservados ao poder de fervura, vinagre e vácuo, e que, sem o auxílio destes artifícios, há muito teriam apodrecido. É como se o elogio contivesse uma pergunta sobre o truque físico-químico que tornou possível a farsa da minha aparência conservada. Terá sido plástica ou dieta macrobiótica? Mas olhando ao redor compreendemos que não podemos estar muito diferentes dos outros.
Mas nenhuma destas revelações jamais me impressionou, até que levei aquele murro na cara. Isto aconteceu já faz alguns anos. Eu estava leve e feliz em São Paulo. Tomei o metrô. O carro estava lotado. O que não me incomodou nem um pouco. Encostei-me num daqueles canos verticais e me entreguei a um dos meus passatempos favoritos: observar os rostos das pessoas. Os rostos sugerem muitas histórias. E assim fui, de rosto em rosto, até que os meus olhos se encontraram com outros olhos que me observavam. Com certeza aquela pessoa tinha um passatempo semelhante ao meu: estava tentando adivinhar as histórias que moravam em mim. Uma jovem, de fisionomia tranquila e quase sorridente. Os seus olhos não se desviaram e por um momento eu me senti feliz. Foi então que eu levei o murro. Seu quase sorriso se transformou em sorriso, seus olhos olhando nos meus: levantou-se e ofereceu-me o seu lugar.
O seu gesto não admitia contestações. Sua terrível gentileza (ela não imaginava o quão terrível era a sua gentileza!) me obrigava. Assentei-me. Não olhei mais para os seus olhos para que ela não percebesse o meu espanto. Sabia que ela tinha gostado de mim. Caso contrário não me teria olhado daquele jeito manso e não me teria oferecido o lugar. Só que ela gostou de mim de um jeito inesperado, gostou de mim de um jeito como eu não queria ser gostado. Vi, refletida nos seus olhos, uma imagem minha que eu nunca vira. Talvez eu me parecesse com o seu pai (se vivo ou já morto não posso saber). Ou talvez eu simplesmente representasse uma outra idade, digna de uma deferência especial por parte dos mais novos. Afinal de contas a velhice é a idade quando fica difícil sustentar o peso do corpo sobre as pernas. Ela, jovem, podia ficar de pé; eu, velho, merecia estar assentado. A sua terrível gentileza me havia colocado longe, muito longe dela, num mundo à parte.
Teria sido muito mais fácil enfrentar uma grosseria. Se não tivesse feito o gesto gentil eu teria ficado na ilusão e carregaria comigo aquele momento de felicidade. Mas ela não era boa em adivinhar os segredos da alma. Fez o gesto, levei o murro e a revelação aconteceu. Vi-me, no espelho honesto do seus olhos, velho.
Mas não pensem que ir ficando velho é ruim. Tem as suas vantagens. Um amigo meu me disse, em meio a risadas, que estava preparando uma lista dos projetos que estava engavetando, em decorrência da idade. Desistira de saltar da pedra da Gávea, em asa-delta. Não pensava mais em descer os Alpes, esquiando. Não esperava encontrar o seu nome entre os jogadores convocados para a seleção brasileira de voleibol. E, sobretudo, já não fazia planos de affair amoroso com a Bruna Lombardi.
Ir ficando velho é desistir de pegar as estrelas, muito altas, longe no futuro. Agora é o tempo da felicidade. Cada novo dia é um milagre de graça, uma taça de prazer que deve ser bebida até o fim, sem deixar para amanhã. Tempus fugit! Portanto, carpe diem - colha o dia que se inicia como quem colhe uma flor que nunca mais se repetirá. 
Vamos, não chores!/ A infância está perdida/ A mocidade está perdida/ Mas a vida não se perdeu./ O primeiro amor passou,/ O segundo amor passou,/ O terceiro amor passou./ Mas o coração continua./ Perdeste o melhor amigo,/ Não tentaste qualquer viagem,/ Não possuis casa, navio ou terra./ Mas tens um cão...
Que imagem mais fiel de felicidade poderia haver? Um cão é a ternura - você pode estar certo disto - que nunca o abandonará. Metáfora do amor incondicional, do olhar que sempre perdoa, da presença que está sempre ali. Perceber isto, eu acho, é ficar um pouco mais sábio.


(Correio Popular, 10/09/1991)

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