quinta-feira, 28 de novembro de 2013

AS VIÚVAS: Rubem Alves

CRÔNICAS: RUBEM ALVES

AS VIÚVAS
Com gesto de mão ela me tirou da poltrona onde eu estava assentado e me chamou para junto da janela da frente da casa. Os ramos e a folhagem de uma trepadeira cobriam o espaço aberto da janela, fazendo dela um lugar ideal para quem quer observar sem ser visto. E ela apontou para três modestas casas, do outro lado da rua.

“São as casas das viúvas”, ela explicou. Não fazia muito tempo a morte passara por lá, levando os três maridos. Agora elas estavam sós, as três velhinhas, nas casas vazias. Os vizinhos se compadeciam e imaginavam que elas deviam se sentir como aquelas mulheres sicilianas que, mortos os maridos, se cobrem com sinistras roupas negras, pelo resto de seus dias, para que todo mundo soubesse que sua vida havia acabado. Se continuavam a viver era porque a religião não lhes permitia pôr um fim à própria vida. Mas bem que gostariam que a morte chegasse logo...

Eu ficava aqui na janela, olhando para as casas fechadas, imaginando aquelas pobres criaturas lá dentro, sozinhas, tendo apenas a tristeza e a saudade como companhia... 
Foi então que comecei a notar sinais de que coisas estranhas estavam acontecendo naquelas três casas e naquelas três velhinhas. Aconteceu depois de passado aquele período em que, por medo do morto, todo mundo se sente na obrigação de fazer cara de tristeza e só de falar sobre os últimos momentos do falecido. Aconteceu que depois a vida foi voltando ao seu normal e a conversa ficou leve de novo... De repente – até parece que foi coisa de magia, pois aconteceu ao mesmo tempo -, as três velhinhas, que todo mundo imaginava mortas, começaram a florescer. E ficaram bonitas como nunca tinham sido quando seus maridos eram vivos!

Uma delas, que só usava birote, cortou e pintou o cabelo, e até mesmo começou a usar batonzinho. Com certeza voltou a conversar com um velho namorado, esquecido, abandonado, pendurado, calado, o espelho, que com a morte do marido reaprendeu a falar: “Não é mais preciso que você seja feia. Ele já se foi. Você está livre para ser bonita como sempre foi...”

A segunda sempre varria a calçada de chinelo, meia soquete e roupão. Começou a aparecer na rua com uns vestidos de cores vivas que nunca usara antes. De onde os teria tirado? De algum baú onde permaneceram trancados com bolas de naftalinas, à espera do grande dia? Ou teriam existidos só no baú dos sonhos proibidos, que a presença do marido não deixava realizar, e que agora voavam livres como borboletas que se libertam de seus casulos?

A terceira, de voz grave e sem sorrisos, falava por monossílabos, e poucos eram o que se lembravam de já ter visto um sorriso em sua boca. Pois, para surpresa de toda vizinhança, ela começou a cantar... Cantou velhas canções de amor, de outros tempos – certamente dos tempos em que ela se sentia como namorada...

A ressurreição das velhinhas me fez sorrir de alegria. Mas logo me dei conta do trágico da vida humana: foi preciso que a morte fizesse o seu trabalho para que a vida brotasse de novo. Lembrei-me então, de um terrível verso de Álvares de Campos: “Talvez seja pior para os outros existires que morreres... Talvez peses mais durando que deixando de durar...”.

É claro que os inocentes maridos tudo isso ignoravam e nada sabiam da vida que jazia sepultada sob o peso da sua presença. Se lhes fossem dado revistar os seus lugares, com certeza teriam dificuldades em reconhecer aquelas com quem haviam vivido (ou morrido) todos os seus anos. De qualquer maneira, teria sido tarde demais... que pena que, ás vezes, a vida tenha de esperar tanto para renascer da sepultura! Que pena que, ás vezes, a vida só tenha uma chance depois que a morte faz o seu serviço...

ENTRE DOIS AMORES: Rubem Alves

CRÔNICAS: RUBEM ALVES


ENTRE DOIS AMORES

O seu coração estava dividido entre dois amores. De um lado, um velho amor que se desfazia e do qual, se despedia. Tinha estado ligado àquela mulher por anos de afeto manso e tranquilo, de amizade real e sincera. Coisa alguma poderia negar este fato. Durante este tempo, ele se sentira como alguém que caminha por uma planície colorida, sem montanhas e abismos, o ar claro e sem brumas, sabendo exatamente o que o esperava. Seu amor havia alcançado aquela condição de certeza sem surpresas, livre dos sofrimentos do ciúme e das dúvidas que são o inferno dos apaixonados. E era isto que ele deixava para trás. E por isto sofria. Encontrara uma outra mulher cuja imagem, por razões que ele não podia compreender, despertara das cavernas da sua memória uma outra cena cheia de mistérios, de perfumes exóticos, de penumbras eróticas, onde crescia o fruto dourado da vida. E ali, nesta nova cena que se refletia nos olhos daquela mulher, e se via como um homem diferente, de corpo jovem dotado de asas, pronto a voar pelo desconhecido, em nada semelhante ao ser doméstico ruminante que morava na cena do seu primeiro amor.

Apaixonara-se por ela. Apaixonara-se pela bela cena que via como aura mágica, em torno daquele rosto. Apaixonara-se pela sua própria imagem, refletida naquele olhar. Queria tê-la para poder ter-se deste modo intenso que nunca antes experimentara. Era preciso dizer adeus. Deixar para trás a antiga companheira fiel, e a cena pálida, descolorida e monótona que aparecia em sua aura cansada. Assim são os velhos amores: fiéis e cansados. Mas a ideia de magoá-la o horrorizava. Chegar para ela e simplesmente dizer: "Estou apaixonado por outra mulher. Vou-me embora." - isto seria uma grosseria que ele nunca se perdoaria. Queria poupar-lhe a dor de ver-se deixada só, na plataforma da estação, enquanto ele partia. A dor de quem fica é sempre maior.

Parece-se com a dor após sepultamento, quando se volta para a casa, e o espaço se enche com a presença de uma ausência. Na verdade a dor da partida é maior que a dor da morte. Pois o morto se foi contra a vontade. Partiu me amando. Partiu triste por me deixar. Nenhuma alegria o espera. Por isto os pensamentos de quem ficou descansam tranquilos, sem serem perturbados por fantasias dos novos amores e prazeres à espera do que morreu. Pois nada o aguarda. A morte pode ser a eternalização do amor. A morte fixa a bela cena, enquanto a partida destrói a bela cena. O apaixonado sofreria menos com a morte da pessoa amada que com a sua partida para um novo amor. Quem quiser entender as razões dos crimes de amor terá de levar isto em consideração. Quem mata por amor é como um fotógrafo que deseja eternizar a imagem amada na bela cena. Não era isto que Cassiano Ricardo sugeria no seu poema ´ Você e o seu retrato`? Ele pergunta: Por que tenho saudade de você, no retrato, ainda que o mais recente? E por que um simples retrato, mais que você, me comove, se você mesma está presente? E depois de sugerir várias respostas ela faz a seguinte afirmação: Talvez porque, no retrato, você está imóvel, sem respiração.Você, viva, ingrata, é a permanente possibilidade da surpresa, do gesto que irá destruir a beleza. Mas, no retrato, você fica imóvel. Transforma-se em quadro. Quem mata por amor é um fotógrafo (cruel) que imobiliza a bela cena. E assim a coloca na parede, como objeto de saudade e devoção, para sempre. Bem dizia Roland Barthes que a única coisa que se encontra fixada na fotografia, qualquer fotografia, é a morte.

Sim, o que fazer? Como partir sem fazer sofrer demais uma pessoa boa, por quem se tinha um afeto sincero? Por vezes uma mentira é o melhor caminho. Há verdades cruéis e mentiras bondosas. Na encruzilhada ética entre a verdade e a bondade, que a bondade triunfe.Imaginou então uma mentira. Iria dizer que estava em dúvidas sobre se ela realmente o amava. Que por vezes ele a observava com o olhar perdido, e que imaginava seus pensamentos distantes, andando por outros amores. Que, inclusive, durante o sono, ela dissera repetidas vezes o nome de um homem (Pobrezinha! Não teria formas de contestá-lo. Pois estava dormindo.) Assim, ele queria que os dois se dessem um tempo. Que ficassem longe, provisoriamente, a fim de que os sentimentos pudessem ficar mais claros. A distância é um excelente remédio para as confusões do amor. E assim ele fez. Ela ouviu suas alegações tranquilamente, sem sobressaltos aparentes. Terminada a sua fala, quando ele se preparava para ouvir as contra-argumentações que deveriam se seguir, o que ele ouviu foi outra coisa: - Sabe? Cada vez mais me surpreende a sua sensibilidade. Como foi que você percebeu? Fiz tudo para esconder meus sentimentos de você! Eu não queria magoá-lo! Mas agora que você já sabe, é bom assumir a nossa verdade. De fato, há um outro. Chegou a hora de dizer adeus.

O que aconteceu naquele instante ele nunca pôde compreender. Pois aquelas palavras eram tudo de que precisava. Estava livre para se entregar sem culpas a sua nova paixão. Mas a única coisa que ele sentiu foi a dor imensa de uma paixão que repentinamente explodia por aquela mulher que lhe dizia adeus. E ele se viu solitário e triste, na plataforma vazia da estação, enquanto ela partia. Só lhe restava voltar para a casa vazia, onde ninguém o esperava. Como eu já disse: "não é a pessoa que amamos; é a cena".


LIÇÕES DE BICHOS E COISAS: Rubem Alves

CRÔNICAS: RUBEM ALVES


LIÇÕES SOBRE BICHOS E COISAS

Tenho inveja das plantas e  dos animais
Parecem-me tão tranquilos, possuidores  de uma sabedoria que nós não temos.
Como se desfrutassem da felicidade  do Paraíso.
Sofrem, pois não existe vida  sem sofrimento.
Mas sofrem sempre como se  deve, quando o sofrimento vem, na hora  certa, e não por antecipação.
Saber sofrer é uma lição  difícil de aprender.
Se o terrível nos golpeia  e não sofremos, algo está errado.
Pois como não chorar, se  o destino nos faz sangrar?

Se não choramos é porque  o coração está doente, perdeu a capacidade de sentir. Mas sofrer fora de hora é  doença também, permitir-se ser cortado por golpes que ainda  não aconteceram e que só existem como fantasmas da imaginação.

Os animais sabem sofrer. Nós  não.

Somos prisioneiros da ansiedade. Pois ansiedade é isto: sofrer fora de hora, por  um golpe que,
por enquanto, só existe no  futuro que imaginamos.

Talvez os animais sejam sadios  de alma e nós, doentes.
Jesus, sofrendo com a nossa  dor pelos sofrimentos que a ansiedade coloca no futuro, nos aconselhou a aprender da sabedoria das aves dos céus  e dos lírios dos campos, reconciliados com a vida, vivendo as dores e felicidades do presente, e livres dos fantasmas da imaginação ansiosa.
Sofremos pelo futuro e, por  isso, não podemos colher as modestas mas reais alegrias  que o presente nos oferece.

Acho que todo mundo sabe,  intuitivamente, que existe uma loucura na maneira de ser  dos homens.
E é por isso que a  nostalgia por um sítio ou por uma  casa na praia aparece como um dos  nossos sonhos mais persistentes.
Para longe do falatório dos  homens, quando todos falam e ninguém  escuta.

De volta para a natureza,  onde nada se diz e, no silêncio, se ouve uma sabedoria esquecida.
Pois só pregam sermões aqueles  que se julgam portadores de uma sabedoria  que os outros não têm.  Prega-se para convencer os outros  a reconhecerem os seus erros.
E para que, pela palavra  ouvida, eles se tornem melhores. Dizem que São Francisco pregava  sermões aos animais. Não acredito.  Mas, de que erro convenceremos  as plantas e os animais?
Pois são perfeitos em tudo  que fazem.
Todos eles se movem harmônicos  ao som da melodia que toca dentro  dos seus corpos.
Acredito que o santo conversava  com os animais, escutava o seu silêncio,  e, se ele falava alguma coisa, era  como o aluno que repete em voz alta  aquilo que aprendeu dos seus mestres.
Não era o santo que pregava  aos animais; eram os animais que lhe ensinavam a sua sabedoria.

Me dirão que plantas e animais  não falam.Engano.
É verdade que estão mergulhados no silêncio.
Mas é neste silêncio que  interrompe o vozerio dos homens que uma  voz é ouvida, vinda das profundezas do  nosso ser.
Pois é aí que mora a  sabedoria que perdemos.
Você tem dificuldade em ouvir  a voz das plantas e dos animais?
Pois que leia os poetas,  profetas do seu saber sem palavras.

A "Sugestão" de felicidade  de Cecília Meireles.
"Ao camelo que mastiga sua  longa solidão,
o pássaro que procura o  fim do mundo,
O boi que vai com inocência  para a morte."

E conclui: “Sede assim qualquer  coisa serena, isenta, fiel. Não como  os demais homens”.
Ela diz que deveríamos ser  como a flor que se cumpre sem pergunta,  a cigarra, queimando-se em música, com o que concorda Alberto  Caeiro, discípulo dos mesmos mestres:
Sejamos simples e calmos,Como os regatos e as árvores,E Deus amar-nos-á fazendo de  nos

Belos como as árvores e  os regatos,E dar-nos-á verdor na sua  primavera,E um rio aonde ir ter  quando acabemos!...

AS RAZÕES DO AMOR: Rubem Alves

 CRÔNICAS: RUBEM ALVES


AS RAZÕES DO AMOR
"Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões". Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa : "A rosa não tem"porquês". Ela floresce porque floresce." Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo." Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra. "Amor é estado de graça e com amor não se paga." Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo.

"Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo..." Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos. Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar... Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra..."



CARTAS DE AMOR: Rubem Alves

CRÔNICAS: RUBEM ALVES

CARTAS DE AMOR

Leio e releio o poema de Álvaro de Campos. Oscilo. Não sei se devo acreditar ou duvidar. Se acredito, duvido. Duvido porque acredito. Pois foi ele mesmo quem disse – ou melhor, o seu outro, o Fernando Pessoa – que ele era um fingidor. "Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas..."

Tenho no meu escritório a reprodução de uma das telas mais delicadas que conheço, Mulher lendo uma carta, de Johannes Vermeer (1632-1675). Uma mulher, de pé, lê uma carta. O seu rosto está iluminado pela luz da janela. Seus olhos leem o que está escrito naquela folha de papel que suas mãos seguram, a boca ligeiramente entreaberta, quase num sorriso. De tão absorta, ela nem se dá conta da cadeira, ao seu lado. Lê de pé. Penso ser capaz de reconstituir os momentos que antecedem este que o pintor fixou. Pancadas na porta interromperam as rotinas domésticas que a ocupavam. Ela vai abrir e lá estava o carteiro, com uma carta na mão. Pela simples leitura do seu nome, no envelope, ela identifica o remetente. Ela toma a carta e, com este gesto, toca uma mão muito distante. Para isto se escrevem as cartas de amor. Não para dar notícias, não para contar nada, não para repetir as coisas por demais sabidas, mas para que mãos separadas se toquem, ao tocarem a mesma folha de papel. Barthes cita estas palavras de Goethe:

Por que me vejo novamente compelido a escrever? Não é preciso, querida, fazer pergunta tão evidente, porque, na verdade, nada tenho para te dizer. Entretanto tuas mãos queridas receberão este papel...

Volto ao Álvaro de Campos. Será esta a razão do ridículo das cartas de amor – o descompasso entre o que elas dizem e aquilo que elas realmente querem fazer? Pois o propósito explícito de uma carta é dar notícias, e é por isto que elas são feitas de palavras. Mas o que elas realmente desejam realizar está sempre antes e depois da palavra escrita: elas querem realizar aquilo que a separação proíbe: o abraço. Quem quer que tente entender uma carta de amor pela análise da escritura estará sempre fora de lugar, pois o que ela contém é o que não está ali, o que está ausente. Qualquer carta de amor, não importa o que se encontre nela escrito, só fala do desejo, a dor da ausência, a nostalgia pelo reencontro.

Aquela carta fez tudo parar. A mulher fecha a porta e caminha pela casa sem nada ver, buscando uma coisa apenas, a luz, o lugar onde as palavras ficarão luminosas. Que lhe importa a cadeira? Esqueceu-se de que está grávida. Seus olhos caminham pelas palavras que saíram das mesmas mãos que a abraçaram. Seu corpo está suspenso naquele momento mágico de carinho impossível que aquele pequeno pedaço de papel abriu no tempo do seu cotidiano.

Uma carta de amor é um papel que liga duas solidões. A mulher está só. Se há outras pessoas na casa, ela as deixou. Bem pode ser que as coisas que estão nela escritas não sejam nenhum segredo, que possam ser contadas a todos. Mas, para que a carta seja de amor, ela tem de ser lida em solidão. Como se o amante estivesse dizendo: "Escrevo para que você fique sozinha...". É este ato de leitura solitária que estabelece a cumplicidade. Pois foi da solidão que a carta nasceu. A carta de amor é o objeto que o amante faz para tornar suportável o seu abandono.

Olho para o céu. Vejo a Alfa Centauro. Os astrônomos me dizem que a estrela que agora vejo é a estrela que foi, há dois anos. Pois foi este o tempo que sua luz levou para chegar até os meus olhos. O que eu vejo é o que não mais existe. E será inútil que eu me pergunte: "Como será ela agora? Existirá ainda?". Respostas a estas perguntas eu só vou conseguir daqui a dois anos, quando a sua luz chegar até mim. A sua luz está sempre atrasada. Vejo sempre aquilo que já foi... Nisto as cartas se parecem com as estrelas. A carta que a mulher tem nas mãos, que marca o seu momento de solidão, pertence a um momento que não existe mais. Ela nada diz sobre o presente do amante distante. Daí a sua dor. O amante que escreve alonga os seus braços para um momento que ainda não existe. A amante que lê alonga os seus braços para um momento que não mais existe. A carta de amor é um abraçar do vazio...

"Ainda bem que o telefone existe", retrucarão os namorados modernos, que não mais têm de viver o amor no espaço das ausências. Engano. Um telefonema não é uma carta falada. Pois lhe falta o essencial: o silêncio da solidão, a calma da caneta pousada sobre a mesa que espera e escolhe pensamentos e palavras. O telefone põe a solidão a perder. Num telefonema a gente nunca diz aquilo que se diria numa carta. Por exemplo: "Eu ia andando pela rua quando, de repente, vi um ipê-rosa florido que me fez lembrar aquela vez...". Ou: "Relendo os poemas de Neruda encontrei este que, imagino, você gostará de ler...".

A diferença entre a carta e o telefone é simples. O telefone é impositivo. A conversa tem de acontecer naquele momento. Falta-lhe o ingrediente essencial da palavra que é dita sem esperar resposta. E, uma vez terminado, os dois amantes estão de mãos vazias.

Mas a mulher tem nas mãos uma carta. A carta é um objeto. Se não tivesse podido recolher-se à sua solidão, ela poderia tê-la guardado no bolso, na deliciosa espera do momento oportuno. O telefonema não pode esperar. A carta é paciente. Guarda as suas palavras. E, depois de lida, poderá ser relida. Ou simplesmente acariciada. Uma carta contra o rosto – poderá haver coisa mais terna? Uma carta é mais que uma mensagem. Mesmo antes de ser lida, ainda dentro do envelope fechado, tem a qualidade de um sacramento: presença sensível de uma felicidade invisível...
Estes pensamentos me vieram depois de ler as cartas de um jovem cientista, Albert Einstein, à sua amada, Mileva Maric'. Foram elas que me fizeram ir ao poema do Álvaro de Campos: ridículas. Todas as cartas de amor são ridículas. Acho que os editores pensaram o mesmo. E como desculpa para o seu gesto indiscreto de tornar público o ridículo que era segredo de dois amantes, escreveram uma longa e erudita introdução que transformou as ridículas cartas de amor em documentos da história da ciência. Valem porque, misturadas ao ridículo de que os amantes se alimentam, se encontram pistas que dão aos historiadores as chaves para a compreensão das "fontes do desenvolvimento emocional e intelectual dos correspondentes". Não sabendo o que fazer com o amor (ridículo), colocaram-nas na arqueologia da ciência.

Foi então que o quadro de Vermeer me fez ver a cena que as cartas escondem. E a mulher com a carta na mão e uma criança na barriga? Ela bem que poderia ser Mileva, grávida de uma filha ilegítima, que foi dada para adoção, e sobre quem nada se sabe. A criança foi dada. Mas as cartas foram guardadas. E que razões poderia ter uma pessoa para guardar cartas ridículas? O seu rosto absorto e os lábios entreabertos nos dão a resposta: para aqueles que amam as ridículas cartas de amor são sempre sublimes.


Volto ao poema do Álvaro de Campos e encontro lá o que faltava para fechar a cena: 

"Afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor são ridículas".

A DOENÇA SEM CURA: Rubem Alves

CRÔNICAS: RUBEM ALVES

A DOENÇA SEM CURA

Preferiria ser acordado pelo canto de um galo. Porque cantos de galos são mais que cantos de galos. Cantos de galo são lugares onde moram universos inteiros, cenários e tempos que podem ser reconhecidos por aqueles que em algum tempo do passado moraram neles. Galos são arautos de um mundo. Seria bom ouvi-los de novo, pois então eu voltaria àqueles mundos onde vivi, e que agora moram infinitamente longe, no passado. Ao invés dos galos, são os bem-te-vis que me acordam. Da árvore do meu quintal eles anunciam o começo de um novo dia. E eu me admiro do imenso acordo que existe neles. Todos iguais. A começar dos uniformes. Como se fossem um partido onde não existem dissidências. Nenhum deseja ser diferente do que é. E a julgar pela convicta repetição do mesmo refrão, bem-te-vi, parece que todos têm as mesmas ideias. Nunca soube de algum que compusesse urna partitura diferente. Estão contentes. Por séculos, milênios, têm estado cantando a mesma coisa sem dela se cansar. Iguais por dentro e por fora. O que me faz supor que devam ser muito amigos uns dos outros, pois quem assim está de acordo só pode ser amigo.
  
A mesma admiração me causam os meus peixes. Por muitos meses eles têm vivido dentro do mesmo aquário. Se eu fosse um deles, creio que já há muito teria enlouquecido de claustrofobia. Pois o aquário é um mundo sem alternativas. Não há saídas. Sempre as mesmas coisas. No entanto (o que pode ser um equívoco de minha parte), eles parecem contentes. Contrariando a máxima sartriana de que o inferno é o outro, compartilham o mesmo espaço limitado sem que haja manifestações visíveis seja de batalhas seja de loucuras. Como os bem-te-vis, imagino também que, de tanto se verem, de tanto fazerem juntos as mesmas rotinas, devem ter se tornado amigos. Afinal de contas, todos eles partilham de um mesmo destino do qual não podem fugir.
  
Ontem achei um bem-te-vi morto no meu quintal. Estava coberto de formigas. Achei-o por acidente, pois nada no canto dos bem-te-vis me sugeria que eles tivessem sido golpeados pela morte. O bem-te-vi morto estava sozinho. Nenhum dos companheiros de mesmo uniforme e mesmo canto que expressasse tristeza. Como se ele não fizesse falta alguma. Como se ele nunca tivesse existido! Como se os seus companheiros de canto nunca o tivessem notado! Não havia tristeza no ar. Seu canto não fazia falta. Era apenas um bem-te-vi sem nome, como todos os outros. Qualquer outro seria o mesmo.

 A mesma coisa aconteceu no aquário. Um peixinho vermelho morreu. Ainda no dia anterior ele brincava com todos os outros peixes, nadava nos mesmos lugares, comia a mesma comida: Agora ele boiava inerte na superfície da água. Mas era como se nada tivesse acontecido. Os outros não sentiam a sua falta. Continuavam suas rotinas, indiferentes, sem demonstrar sofrimento algum.

Quando eu era menino, numa cidade do interior, quando alguém morria as igrejas faziam soar o repique fúnebre dos sinos. Não importava que fosse um desconhecido. Todo mundo ficava sabendo que em algum
lugar se chorava. Abria-se um espaço sagrado - pois o sagrado é isto, ali onde os homens choram juntos.

E fiquei a pensar em como somos diferentes: a felicidade dos animais e o choro dos homens. Nossos corpos são diferentes. O dia continuava belo para os bem-te-vis, o aquário continuava o mesmo para os peixinhos
- porque, sem que tenham isto aprendido com qualquer filósofo estoico - eles praticam naturalmente a ataraxia, a absoluta indiferença ante os golpes da vida. Não sentem. Ou melhor, só sentem aquilo que diretamente atinge a sua pele. Disto o budismo já nos adverte: que a nossa intranquilidade se deve ao nosso desejo. Elimine-se o desejo, e o sofrimento se reduzirá à dor que se sente no corpo.

Acontece que os deuses brincaram conosco e fizeram nosso corpo de uma outra substância. Em nossa carne mora o desejo. E desejo é isto: uma abertura para o universo inteiro, braços que abraçam desde as mais distantes estrelas até as mais ínfimas das criaturas. Pois Fernando Pessoa não tinha dó das estrelas? Não, não se tratava de figura retórica: ele sofria mesmo ao vê-las brilhando sem cessar, sem jamais descansar. Que vale dizer que as estrelas não sentem se, no corpo do poeta elas vivem como uma ferida pulsante? Um dos meus maiores amigos - amigo de todas as horas - é o seu João, pedreiro único, não existindo outro igual. Pois todos os dias, antes de começar o seu trabalho ele vai até a beirada da piscina e salva todos os bichinhos que ali haviam caído durante a noite - abelhas, marimbondos, besouros. Tolice, dirão. Pois não fazem falta. Morrerão de qualquer forma e nenhum dos seus companheiros está demonstrando qualquer sentimento face à tragédia daqueles que ainda ontem voavam com eles. Haverá outras abelhas, outros marimbondos, outros besouros... Certo. Isto vale para os bichos. Mas não vale para o seu João. Pois a sua carne, doente de afeto, sofre com o sofrimento dos pequenos animais.

Nosso corpo padece desta doença: o amor. Seu limite não é a pele. Ele contém o universo inteiro. Dizia Pablo Neruda: “Sou onívoro de sentimentos, de seres... Comeria toda a terra. Beberia todo o mar.” E o nosso sofrimento tem a ver justamente com isto: que gostaríamos, como uma mãe, de acolher, proteger, acalentar tudo o que existe. E é por isto que o destino de um pássaro perdido, de uma gaivota coberta de óleo, de uma árvore que geme consumida pela queimada, são tragédias internas, que fazem nosso corpo estremecer e chorar.
  
Pensei estas coisas depois de ter tentado aprender com os animais e com as plantas o segredo da sua tranquilidade. E concluí que esta é uma lição que nos está vedado aprender. Nunca poderemos participar da sua felicidade. Para sermos tranquilos como bichos e árvores, seria necessário que não tivéssemos coração. Estamos condenados ao sofrimento porque estamos condenados ao amor. Nas palavras de Wordsworth, “graças ao coração humano que nos faz viver,/ graças à sua ternura, alegrias e temores,/ a mais singela flor que o vento sopra/ faz-me pensar pensamentos profundos demais até para as lágrimas.”

Este é o preço que se paga por se ter dentro de um corpo tão pequeno um coração que abraça um universo tão grande.

  

(Correio Popular, 1991 ou 1992)

A REVELAÇÃO: Rubem Alves

CRÔNICAS: RUBEM ALVES

A REVELAÇÃO
A revelação acontece de repente, sem avisar. É bem verdade que diariamente nos olhamos no espelho. Mas este olhar diário é um ver sem perceber.
Por muitos anos sabia que meus cabelos estavam caindo. Notava que minhas entradas iam ficando maiores. Mas continuava a penteá-los normalmente, sem notar que o repartido se aproximava cada vez mais da orelha. Eu era um caso de charmosos cabelos ralos. O espelho me dizia, mas eu não acreditava. O momento da revelação aconteceu no Recife, numa roda de repentistas. Um deles, pra ser gentil, improvisou-me um verso, cantando-me como doutor careca. Desde este dia nunca mais me olhei no espelho da mesma maneira. Percebi que era inútil continuar a lutar com o repartido. Mas não liguei muito, consolando-me com a lembrança de que um dos maiores heróis da mitologia, Ulisses (não o de Brasília, mas o da Odisseia...) era careca também. E como Penélope o amava!
Por vezes a revelação terrível nos chega sob a forma de um elogio. “Puxa, como você está conservado!” Ninguém que me veja todo dia vai me dizer uma coisa destas. O espanto ante o meu surpreendente estado de conservação só pode existir em alguém que não me via há muito tempo, e que esperava me encontrar num estado mais avançado de deterioração. Tais experiências de espanto e os elogios que as revelam ocorrem, preferencialmente, nas reuniões de família, eventos raros que geralmente acontecem nos enterros, e nos reencontros para a comemoração dos 25 anos de formatura. Ao ouvir tal cumprimento, lembro-me sempre dos pepinos conservados ao poder de fervura, vinagre e vácuo, e que, sem o auxílio destes artifícios, há muito teriam apodrecido. É como se o elogio contivesse uma pergunta sobre o truque físico-químico que tornou possível a farsa da minha aparência conservada. Terá sido plástica ou dieta macrobiótica? Mas olhando ao redor compreendemos que não podemos estar muito diferentes dos outros.
Mas nenhuma destas revelações jamais me impressionou, até que levei aquele murro na cara. Isto aconteceu já faz alguns anos. Eu estava leve e feliz em São Paulo. Tomei o metrô. O carro estava lotado. O que não me incomodou nem um pouco. Encostei-me num daqueles canos verticais e me entreguei a um dos meus passatempos favoritos: observar os rostos das pessoas. Os rostos sugerem muitas histórias. E assim fui, de rosto em rosto, até que os meus olhos se encontraram com outros olhos que me observavam. Com certeza aquela pessoa tinha um passatempo semelhante ao meu: estava tentando adivinhar as histórias que moravam em mim. Uma jovem, de fisionomia tranquila e quase sorridente. Os seus olhos não se desviaram e por um momento eu me senti feliz. Foi então que eu levei o murro. Seu quase sorriso se transformou em sorriso, seus olhos olhando nos meus: levantou-se e ofereceu-me o seu lugar.
O seu gesto não admitia contestações. Sua terrível gentileza (ela não imaginava o quão terrível era a sua gentileza!) me obrigava. Assentei-me. Não olhei mais para os seus olhos para que ela não percebesse o meu espanto. Sabia que ela tinha gostado de mim. Caso contrário não me teria olhado daquele jeito manso e não me teria oferecido o lugar. Só que ela gostou de mim de um jeito inesperado, gostou de mim de um jeito como eu não queria ser gostado. Vi, refletida nos seus olhos, uma imagem minha que eu nunca vira. Talvez eu me parecesse com o seu pai (se vivo ou já morto não posso saber). Ou talvez eu simplesmente representasse uma outra idade, digna de uma deferência especial por parte dos mais novos. Afinal de contas a velhice é a idade quando fica difícil sustentar o peso do corpo sobre as pernas. Ela, jovem, podia ficar de pé; eu, velho, merecia estar assentado. A sua terrível gentileza me havia colocado longe, muito longe dela, num mundo à parte.
Teria sido muito mais fácil enfrentar uma grosseria. Se não tivesse feito o gesto gentil eu teria ficado na ilusão e carregaria comigo aquele momento de felicidade. Mas ela não era boa em adivinhar os segredos da alma. Fez o gesto, levei o murro e a revelação aconteceu. Vi-me, no espelho honesto do seus olhos, velho.
Mas não pensem que ir ficando velho é ruim. Tem as suas vantagens. Um amigo meu me disse, em meio a risadas, que estava preparando uma lista dos projetos que estava engavetando, em decorrência da idade. Desistira de saltar da pedra da Gávea, em asa-delta. Não pensava mais em descer os Alpes, esquiando. Não esperava encontrar o seu nome entre os jogadores convocados para a seleção brasileira de voleibol. E, sobretudo, já não fazia planos de affair amoroso com a Bruna Lombardi.
Ir ficando velho é desistir de pegar as estrelas, muito altas, longe no futuro. Agora é o tempo da felicidade. Cada novo dia é um milagre de graça, uma taça de prazer que deve ser bebida até o fim, sem deixar para amanhã. Tempus fugit! Portanto, carpe diem - colha o dia que se inicia como quem colhe uma flor que nunca mais se repetirá. 
Vamos, não chores!/ A infância está perdida/ A mocidade está perdida/ Mas a vida não se perdeu./ O primeiro amor passou,/ O segundo amor passou,/ O terceiro amor passou./ Mas o coração continua./ Perdeste o melhor amigo,/ Não tentaste qualquer viagem,/ Não possuis casa, navio ou terra./ Mas tens um cão...
Que imagem mais fiel de felicidade poderia haver? Um cão é a ternura - você pode estar certo disto - que nunca o abandonará. Metáfora do amor incondicional, do olhar que sempre perdoa, da presença que está sempre ali. Perceber isto, eu acho, é ficar um pouco mais sábio.


(Correio Popular, 10/09/1991)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A ALEGRIA: Rubem Alves

CRÔNICAS:Rubem Alves

A ALEGRIA
Pouco antes de morrer, Roland Barthers pronunciou a sua conferência inaugural como professor do College de France. Sabia que estava ficando velho, mas saudava a velhice como tempo de recomeço, o início de uma vita nuova. E ao terminar sua fala fez uma confissão pessoal espantosa. Disse que havia chegado o momento de entregar-se ao esquecimento de tudo o que aprendera. Tempo de desaprender. As cobras, para continuar a viver, têm de abandonar a casca velha. Também ele tinha de abandonar os saberes com que a tradição o envolvera. Somente assim a vida poderia brotar de novo, fresca, do seu corpo, como a água brota das profundezas onde estivera enterrada. E disse então que este era o sentido de ficar sábio: 

“Nada de poder;/ um pouquinho de saber;/ e o máximo possível de sabor...”

Sendo aquela a ocasião em que estava sendo inaugurado como professor, ele dizia que era isto que pretendia ser, daquele momento para frente: um mestre do prazer, aquele que se dedica a ensinar aos seus jovens alunos o gosto bom das coisas! Quem toma uma decisão como esta está afirmando que o prazer é a única coisa que vale a pena. Vivemos para o prazer. O que é espantoso é que tal revelação lhe tenha sido feita quando ele já deixara para trás os anos da juventude. Talvez que a sabedoria seja coisa crepuscular. Lembro-me das palavras de Hegel, que disse isto de forma poética: 

“a coruja de Minerva só abre as suas asas quando chega a penumbra que antecede o anoitecer...”

Jorge Luís Borges também só viu direito depois que a velhice o cegou. “Se eu pudesse de novo viver a minha vida...”: é assim que ele inicia o seu lindo texto-testamento, confessando que naquele momento deixava para trás tudo aquilo que um dia soubera como sabedoria. Agora, na velhice, chegava o momento de uma nova sabedoria. E ele descreve a vida que viveria, com os olhos de um menino. Sua sabedoria crepuscular era a sabedoria da criança que a educação desterrara e que, naquele momento, retornava. A sabedoria do crepúsculo é um reencontro com a infância. 

“Se eu pudesse viver de novo a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios, começaria a andar descalço no começo da Primavera e continuaria assim até o fim do Outono. Porque, se não o sabem, disto é feita a vida, só de momentos. Não percam o agora.”

Palavras que não se espera da boca de um velho. Nenhuma advertência solene. Nenhum conselho grave. Nenhuma palavra sombria. Somente o convite à leveza. A vida lhe aparece com uma imensa simplicidade: encontros sucessivos e inesperados com a alegria, que está sempre ao alcance da mão. Efêmera, em suas cores crepusculares, mas deliciosa como uma taça de vinho ou um beijo... Daí o seu conselho: 

“Não percam o agora. Ele nunca mais se repetirá.”

Fernando Pessoa diz a mesma coisa num dos seus poemas.

“Dia em que não gozaste não foi teu:/ Foi só durares nele. Quanto vivas/ Sem que o gozes, não vives./ Não pesa que amas, bebas ou sorrias: Basta o reflexo do sol ida na água/ De um charco, se te é grato./ Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas/ Seu prazer posto, nenhum dia nega/ A natural ventura.”

É preciso muito pouco. Ela está muito próxima. Mora no momento. Perdemos a alegria porque pensamos que ela virá no futuro, depois de algum evento portentoso que mudará a nossa vida. Mas vida: o que é isto? Como diz o Riobaldo, “vida é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei de uma ideia falsa. Cada dia é um dia.” E a gente fica esperando que ela haverá de chegar depois da formatura, do casamento, do nascimento, da viagem, da promoção, da loteria, da eleição, da casa nova, da separação, da morte do marido, da morte da mulher, da aposentadoria... E ela não chega porque a alegria não mora no futuro mas só no agora.

Ela está lá ,modesta e fiel, no espaço da casa, no espaço da rua. Se não a encontrarmos, não é culpa dela. É culpa nossa. Nossos pensamentos andam muito longe dos lugares onde ela mora e, por isso, nossos olhos não podem ver. Como dizia o Mário Quintana, “quantas vezes a gente, em busca da ventura, procede tal e qual o avozinho infeliz: em vão, em toda parte, os óculos procura, tendo-os na ponta do nariz!”.

Velhice é quando se percebe que não existe no futuro nenhum evento portentoso por que esperar, como início da felicidade. Mas isto não será verdadeiro da vida inteira? Por isso, talvez, os jovens devessem aprender com os velhos que é preciso viver cada dia como se fosse o último. A alegria mora muito perto. Basta esticar a mão para colhê-la, sem nenhum esforço. Mas, para isto, seria necessário que os nossos olhos fossem iluminados pela luz do crepúsculo.


 (Correio Popular, 12/11/1991)

A AMIZADE: Rubem Alves

CRÔNICAS: Rubem Alves

A AMIZADE

Lembrei-me dele e senti saudades... 
Tanto tempo que a gente não se vê! 
Dei-me conta, com uma intensidade incomum, da coisa rara que é a amizade. 
E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá. 
A beleza da poesia, da música, da natureza, 
as delícias da boa comida e da bebida  perdem o gosto 
e ficam meio tristes quando não temos um amigo com quem
compartilhá-las. 
Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto:
a busca de um amigo, uma luta contra a solidão...
  
Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca me esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. 
Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. 
Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo o que já sentira antes.
  
O encontro acontecera de repente, mas era como se já tivessem sido amigos a vida inteira. 
A experiência da amizade parece ter suas raízes fora do tempo, na eternidade. 
Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre.
Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. 
Bastava a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro.
  
 “Christophe voltou sozinho dentro da noite. 
Seu coração cantava ‘Tenho um amigo, tenho um amigo!’ Nada via. Nada ouvia. 
Não pensava em mais nada. Estava morto de sono e adormeceu apenas deitou-se. 
Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma ideia fixa.
Repetia para si mesmo: ‘Tenho um amigo’, e tornava a adormecer.”

Jean-Christophe compreendera a essência da amizade.
Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. 
Você tem aqui um teste para saber quantos amigos você tem. 
Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, 
se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e 
manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é amiga. 
Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos 
não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou tramar.
Até que tudo isso pode acontecer. Mas a diferença está em que, quando a pessoa não é amiga, 
terminado o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio -
que são insuportáveis. 
Nesse momento, o outro se transforma num incômodo que entulha o espaço e 
cuja despedida se espera com ansiedade.
  
Com o amigo é diferente. Não é preciso falar.
Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. 
Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria
independentemente do que se faça ou diga. 
A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas.
  
Uma estória oriental conta de uma árvore solitária
que se via no alto da montanha. 
Não tinha sido sempre assim. Em tempos passados, a montanha estivera coberta de árvores maravilhosas, altas e esguias, que os lenhadores cortaram e venderam. 
Mas aquela árvore era torta, não podia ser transformada em tábuas. 
Inútil para os seus propósitos, os lenhadores a deixaram lá. 
Depois vieram os caçadores de essências em busca de madeiras perfumadas. 
Mas a árvore torta, por não ter cheiro algum, foi desprezada e lá ficou. 
Por ser inútil, sobreviveu. Hoje ela está sozinha na montanha. 
Os viajantes se assentam sob a sua sombra e descansam.
  
Um amigo é como aquela árvore. Vive de sua inutilidade. 
Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. 
Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. 
Diante do amigo sabemos que não estamos sós. 
E alegria maior não pode existir.

 (Correio Popular, 1991 ou 1992)

COM hífen ou SEM hífen?



Seminovo, semi-novo ou semi novo?

Conforme as novas regras ortográficas, não se usa hífen quando o prefixo termina com vogal e o segundo elemento se inicia por consoante, exceto quando se inicia com as consoantes "r" e "s".

Vamos aos exemplos:

anteprojeto, antipedagógico, autopeça, autoproteção, geopolítica, microcomputador, pseudoprofessor, semicírculo, semideus,  ultramoderno.


Portanto, se escreve seminovo sem hífen.

Contribuição: http://www.comoescreve.com

Como está a sua AUTOESTIMA?


Auto estima, autoestima ou auto-estima?

Com o Novo Acordo Ortográfico algumas palavras perdem o hífen e autoestima é uma delas.


Antes o correto era usar auto-estima com hífen, se bem que se você usar auto-estima com hífen hoje será aceito, pois o Novo Acordo Ortográfico só entra em vigor em 2016, portanto admite-se as duas formas, mas é bom começar usar a nova regra ortográfica desde já. 

Eu já utilizo o Novo Acordo, e você?

Contribuição:
 http://www.comoescreve.com

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

domingo, 17 de novembro de 2013

NãO se AssUsTe!



Numa língua, existem vários modos de falar, determinados pela localização geográfica do falante, faixa etária, situação, nível de escolaridade, nível social dentre outros fatores. Dentre estes, existe um que se institui como língua-padrão, que corresponde ao modo de falar das pessoas de mais prestígio dentro do grupo social, quando usam a língua em situações formais.

A Gramática é fruto desta tentativa de sistematizar a língua padrão, estabelecendo normas daquilo que seria falar corretamente uma língua. Essas normas, instituídas pelo uso das pessoas de prestígio e explicitadas pela Gramática, estão sempre sujeitas a desvios em razão da heterogeneidade da fala, já que uma pessoa nunca fala do mesmo modo em todas as situações.

Conceituando correto e errado, neste contexto, temos:

* Correto: é todo uso linguístico que segue as normas da língua-padrão;
* Errado: é todo uso linguístico que não segue as normas impostas pela gramática.


Ainda que esses erros se situem nas mais diversas camadas da língua, em virtude de a Gramática Normativa não se basear nas situações de fala, é possível determinar alguns tipos que costumam ocorrer com mais frequência, tomando sempre por base a língua escrita. São eles:
Erros de impropriedade vocabular
Erros de grafia
Erros de acentuação gráfica
Erros de emprego da crase
Erros de emprego de pronomes
Erros de emprego de verbos
Erros de regência e concordância
Erros de morfologia em substantivos e adjetivos
Erros de colocação pronominal

Vamos verificar várias impropriedades vistas por aí, pelo nosso Brasil...
































Colaboração: https://www.facebook.com/pages/Erros-de-português-mais-engraçados







Visto e revisto...


Contribuição
Fonte: http://www.pinterest.com/pin/231372499578945458/

"Nasceu gente, é inteligente." (Piaget)


Contribuição: https://www.facebook.com/educarcrescer

sábado, 16 de novembro de 2013

ApReNdEr?











"O texto abaixo estava num dos meus arquivos a serem usados nas aulas de produção de texto. Os alunos falam muito sobre a necessidade quase inexistente de alguns assuntos nas aulas de Português. Não tiro a  razão deles, mas assuntos “bobos” como ortografia ainda são os mais necessários porque eles escrevem mal demais e continuarão escrevendo mal porque continuarão ignorando a necessidade de dar atenção ao mais simples. Dia a dia vejo alunos se afundando na hora de escrever com dúvidas ridículas [leia-se por dúvidas ridículas aquelas que cinco minutos atrás tinham sido tiradas ou aqueles que julga-se que, no terceiro ano, já saibam resolver]." Deem uma olhada no texto abaixo...


A regreção da redassão

Semana passada recebi um telefonema de uma senhora que me deixou surpreso. Pedia encarecidamente que ensinasse seu filho a escrever.
- Mas, minha senhora - desculpei-me -, eu não sou professor.
- Eu sei. Por isso mesmo. Os professores não têm conseguido muito.
- A culpa não é deles. A falha é do ensino.
- Pode ser, mas gostaria que o senhor ensinasse o menino. O senhor escreve muito bem.
- Obrigado - agradeci -, mas não acredite muito nisso. Não coloco vírgulas e nunca sei onde botar os acentos. A senhora precisa ver o trabalho que dou ao revisor.
- Não faz mal - insistiu -, o senhor vem e traz um revisor.
- Não dá, minha senhora - tornei a me desculpar -, eu não tenho o menor jeito com crianças.
- E quem falou em crianças? Meu filho tem 17 anos.
Comentei o fato com um professor, meu amigo, que me respondeu: "Você não deve se assustar, o estudante brasileiro não sabe escrever". No dia seguinte, ouvi de outro educador: "O estudante brasileiro não sabe escrever". Depois li no jornal as declarações de um diretor da faculdade: "O estudante brasileiro escreve muito mal". Impressionado, saí a procura de outros educadores. Todos me disseram: acredite, o estudante brasileiro não sabe escrever. Passei a observar e notei que já não se escreve mais como antigamente. Ninguém mais faz diário, ninguém escreve em portas de banheiros, em muros, em paredes. Não tenho visto nem aquelas inscrições, geralmente acompanhadas de um coração, feitas em casca de árvore. Bem, é verdade que não tenho visto nem árvore.
- Quer dizer - disse a um amigo enquanto íamos pela rua - que o estudante brasileiro não sabe escrever? Isto é ótimo para mim. Pelo menos diminui a concorrência e me garante emprego por mais dez anos.
- Engano seu - disse ele. - A continuar assim, dentro de cinco anos você terá que mudar de profissão.
- Por quê? - espantei-me. - Quanto menos gente sabendo escrever, mais chance eu tenho de sobreviver.
- E você sabe por que essa geração não sabe escrever?
- Sei lá - dei com os ombros -, vai ver que é porque não pega direito no lápis.
- Não senhor. Não sabe escrever porque está perdendo o hábito da leitura. E quando o perder completamente, você vai escrever para quem? Taí um dado novo que eu não havia considerado. Imediatamente pensei quais as utilidades que teria um jornal no futuro: embrulhar carne? Então vou trabalhar num açougue. Serviria para fazer barquinhos, para fazer fogueira nas arquibancadas do Maracanã, para forrar sapato furado ou para quebrar um galho em banheiro de estrada? Imaginei-me com uns textos na mão, correndo pelas ruas para oferecer às pessoas, assim como quem oferece hoje bilhete de loteria:
- Por favor, amigo, leia - disse, puxando um cidadão pelo paletó.
- Não, obrigado. Não estou interessado. Nos últimos cinco anos a única coisa que leio é a bula de remédio.
- E a senhorita não quer ler? - perguntei, acompanhando os passos de uma universitária.
– A senhorita vai gostar. É um texto muito curioso.
- O senhor só tem escrito? Então não quero. Por que o senhor não grava o texto? Fica mais fácil ouvi-lo no meu gravador.
- E o senhor, não está interessado nuns textos?
- É sobre o quê? Ensina como ganhar dinheiro?
- E o senhor, vai? Leva três e paga um.
- Deixa eu ver o tamanho - pediu ele.
Assustou-se com o tamanho do texto:
- O quê? Tudo isso? O senhor está pensando que sou vagabundo? Que tenho tempo para ler tudo isso? Não dá para resumir tudo em cinco linhas?

(Carlos Eduardo Novaes)

Colaboração> 

ANÁLISE DE TEXTOS

Acesso: 16.11.2013